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Aleksándr, O Homem.

Meu pai costumava dizer que a coragem de um homem se mede não pelos atos que ele comete em nome de alguma prova, mas sim nos momentos em que se nega a fazer algo porque entende que não precisa provar nada a ninguém. Eu, obviamente, ouvia tudo isso calado, mas no meu interior maldizia aquelas palavras, pensando apenas que meu pai era só mais um covarde como todos os outros naquela casa. Naquela época não sabia do que sei hoje, porque é só através da vivência que reconhecemos os ensinamentos que os mais velhos tentaram nos passar.

Meu nome é Aleksándr, sou conhecido apenas como “O homem” por aqueles que temem o meu trabalho e essa história que irei te contar, não vai lhe deixar mais feliz e nem servir como material principal para o seu livro, porém transmitirá um conhecimento que nenhum dos colégios católicos conservadores foi capaz de me passar quando mais novo.

Eu já trabalhava para a “máfia” há muito tempo, mas apenas em cargos pequenos. Era o que eles chamavam de lixeiro, fazia a faxina depois que o trabalho dos carrascos estava pronto. Não era um emprego muito bom, mas me ajudou a ficar fora de problemas maiores por bastante tempo. Tempo suficiente para aprender mais do que a maioria que ia e vinha como soldados e atiradores de elite incapazes de ficar sóbrios para dar um bom tiro.

Tenho que admitir que em alguns momentos eu gostava de mentir para os policiais e pagar pelo silêncio deles e o engraçado é que gostava ainda mais quando o silêncio deles era falho, no fundo porque eu sabia que aquele era o tipo de coisa que meus chefes gostavam de punir em alto estilo. O lema era “contrato desfeito, vida desfeita” e esses homens para quem eu trabalhava não eram piedosos em suas vinganças. Uma dessas vinganças em especial foi o que me colocou dentro do círculo maior.

Minha missão era fazer uma cobrança. Aparentemente não haveria hostilidade, o devedor já era velho conhecido e sempre atrasava para fazer seus pagamentos, acho que tinha algo a ver com a mulher que estava morrendo de câncer. Para a minha infelicidade, dessa vez as coisas foram diferentes e foi nesse dia que eu dei o primeiro passo. Ainda posso me lembrar de cada fala, como num desses filmes que vocês americanos fazem. “Não tenho dinheiro esse mês, meu jovem” disse o velho, ele era só um barbeiro de idade avançada e eu não tinha motivos para espancá-lo até ver a cor do dinheiro. Eu poderia ter saído da sala e ter colocado dinheiro meu dentro do envelope de pagamento, era pouca coisa na época e seria menos hoje em dia. Diferente de tudo o que queria fazer naquele momento, apenas perguntei mais uma vez “quando o senhor terá dinheiro para nos pagar senhor Macfield?” e o velho sorriu para mim com o canto da boca e apenas respondeu “amanhã meu jovem, amanhã”. Sim, sabia que ele estava mentindo para mim, ele realmente não tinha o dinheiro, isso eu mesmo poderia ter visto, a mentira estava em me dizer que no dia seguinte aquela situação mudaria. Eu sei quando situações mudam para homens simples como ele e o “amanhã” que havia dito não seria um dia desses. Não poderia perdoar que um homem como aquele mentisse para mim, era o meu primeiro trabalho sério e se eu saísse dali como fraco, teria que deixar a máfia.

- E o que o senhor fez? Como o matou?

Você é um garoto apressado, mas entendo sua vontade de saber como eu dei cabo de um velho indefeso, é o cinema e esses jogos que fazem vocês ter tanta sede de sangue. Mas contrariando tudo o que você conhece sobre nós, os russos, não o matei com floreios e requintes cruéis, apenas mirei aqueles olhos velhos e percebi que ele já esperava ser espancado, provavelmente por ser isso que todos os cobradores antes mim faziam. Aí levantei minha arma e acertei um tiro bem no meio da testa.

Você sabe como uma vítima de tiro a queima roupa na cabeça morre? Não é uma visão muito bonita, pelo menos para pessoas normais. A bala entra pela frente com um pequeno furo e sai por trás fazendo um rombo enorme. Eu vi aquela cena pela primeira vez com apenas 22 anos de idade e tem quem diga que eu já estava velho para ver algo do tipo.

O resto do meu trabalho não foi importante, só joguei gasolina por todo o chão da barbearia enquanto ouvia a voz da mulher do barbeiro gritar do andar de cima “ John meu velho, o que está acontecendo aí em baixo?”

- E porque você simplesmente não subiu lá e a matou também?

Meu deus! Você é um doente sádico. Está me impressionando cada vez mais, menino repórter. Eu só não tinha motivos para matá-la com minhas próprias mãos, afinal de contas ela não tinha culpa da mentira do marido, era só uma inválida presa em uma cama suja com a sua própria merda. Sim, quando toquei fogo na barbearia a matei também, porém foi completamente diferente. Ela morreu por não ter forças para se levantar quando viu as chamas pela subindo pelas escadas, de certa forma não posso ser culpado por essa morte.

Acho que chegamos ao ponto em que você vai ouvir o que tenho a ensinar garoto. Porque a morte desse velho barbeiro, que na época tinha menos idade do que tenho agora, é um grande exemplo de ensinamento que ignoramos quando somos jovens. Ele morreu por uma mentira, correto? Sim, isso mesmo, ele morreu por contar uma mentira a quem não deveria. Eu teria lhe poupado a vida se tivesse caído aos meus pés aos prantos dizendo que não tinha dinheiro, mas que lhe poupasse a vida. Ele preferiu mentir, tinha o hábito de mentir e ser punido levemente por isso. Se todos os cobradores anteriores tivessem feito algo a ele que fosse importante, provavelmente não teria mentido e não estaria morto. Em resumo, ele morreu por ter o costume de mentir.

Você está gravando tudo? Está aprendendo, meu jovem? Está realmente absorvendo o que lhe disse esses dias? Espero que sim, porque se um dia você mentir por hábito a um membro da máfia russa, vai ser punido da mesma forma que aquele velho barbeiro. E por falar nisso, acabo de me lembrar da história de repórter que tentou fazer o mesmo que você, mas isso é história para outro dia. Agora saia e me deixe descansar.

- Poderei voltar amanhã?

Se eu ainda estiver aqui para contar algo, dizem que tem ótimos peixes na costa leste esse ano.

Lotus - A prostituta

Finalmente a continuação de uma dos meus mais novos projetos...
Lotus
Segundo capitulo: A prostituta

Quando fiz o pedido, tremendo por dentro, não acreditava que seria aceito, achei que seria rejeitado. Em momento algum pensei que seria mal tratado, não na casa dos Hinton, mas no fundo imaginei que aquela garota apenas riria da minha proposta, pois nós só havíamos nos visto de muito longe e ela parecia nem me notar. Mas a verdade nem sempre é como imaginamos! Quando fiz o pedido, ela abriu o maior sorriso que já pude ver em uma garota comportada como ela.
- Como já lhe disse jovem Jef: aqui em casa, até as mulheres fazem suas próprias escolhas, então seu pedido não deveria ser feito a nossa pessoa e sim a minha filha que é quem decidirá se aceita ou não seu pedido. – era a coisa mais irreal que poderia acontecer. Olhei para a jovem Susan, não queria ter que repetir a pergunta, mas se fosse necessário faria.
- Não precisa perguntar novamente Sr. Jeferson – ela definitivamente havia lido meus pensamentos – Antes de responder a sua pergunta, gostaria que me dissesse o porquê desse pedido.
Ela havia acabado comigo numa só frase. Como eu poderia assumir que estava apenas por interesse nas vantagens que teria me casando com ela, no dinheiro que aquela união me proporcionaria. Meu plano sempre fora falho, porque eu estava indo de encontro a um precipício esperando voar, se não desse certo eu apenas cairia e me machucaria, ficaria com o orgulho ferido e a família dela fechasse suas portas para mim, mas eu tinha que arriscar fazendo o pedido, sabia que ninguém nunca havia feito o pedido da mão daquela jovem e que teria mais chances sendo filho de um antigo amigo.
A verdade é que na hora inventei que já havia notado a beleza de Susan e sempre me lembrei dos momentos em que brincávamos juntos quando crianças, deixei claro que era uma paixão que tinha desde pequeno. E a meu ver eles engoliram a história como se ela fosse uma verdade incontestável. Na hora não pensei, mas hoje tenho quase certeza de que eles só estavam loucos para casar sua filha mais velha, porque já estava passando da hora.
- Antes de aceitar qualquer pedido seu Jef, gostaria de conversar com você melhor. Como você mesmo pode ver, aqui em casa, somos pessoas muito distintas e razoáveis, não nos deixamos levar por decisões tolas. Sei que você é um bom rapaz e que pede minha mão com as melhores intenções.
- E para que não pensem qualquer impropriedade de minha adorada filha, vou deixar que vocês conversem, mas Beth ficará na sala. Sei que não vai se importar, não é querida Beth? – acho que ela se importava sim.
Conversamos naquela tarde e nos tornamos mais íntimos com o passar da horas. Eu sabia que ela aceitaria o pedido. A família aceito, era tudo uma grande loucura, eu mesmo não era capaz de acreditar que uma Hinton aceitara se casar comigo, foi um dia estranho, mas dias estranhos estavam no meu currículo desde que começara ser jornalista.
***
O tempo passou, assim como o dia em que fui anunciado como o noivo de Susan Hinton para toda a alta sociedade de nossa cidade. Foi uma festa muito bonita, com garçons, talheres de prata, mesas no jardim da casa dos Hinton, as amigas de Susan e da família e meus poucos amigos do trabalho.
- Agora que você vai se amarrar, temos que fazer uma despedida de solteiro para você Jef – o Larry estava quase gritando, mas estava bêbado e não espero outra coisa do Larry quando está bêbado.
- Fala baixo! Agora o Jef é um rapaz de família. E o que a jovem e recatada Susan Hinton ia pensar de nosso jornalista se ouvisse esse tipo de conversa em seu jardim. – Joe, aquele hipócrita, sempre achei que ele me odiava, mas na verdade era só inveja.
- É Larry, depois conversamos sobre esse tipo de coisa e tenta não beber mais, não quero te levar em casa mais uma vez. – eu disse meio que olhando de soslaio para o grupo onde Susan conversava com uma senhoras, uns maracujás de gaveta na realidade, mas mesmo assim ainda eram a alta sociedade.
Aquele conversa seria meu tumulo, mas mesmo assim ela continuou no outro dia, quando tínhamos que fingir que trabalhávamos em uma redação jogada as moscas de uma segunda-feira destruída pela maior tempestade que a costa leste já havia visto.
- Lembra do que falei na sua grande festa sobre uma possível despedida de solteiro para você? – o Larry não ia me fazer esquecer essa história.
- Lembro, mas não se anime. Não vai acontecer nada, não vamos a lugar nenhum. Se o pai da Susan ficar sabendo que eu fui a algum inferninho com vocês , ele vai botar minha cabeça a premio. – eu sabia que o Sr. Hinton não acharia nada mal, e talvez até nos acompanhasse, mas o que me preocupava mesmo era o que Susan pensaria.
- Tem certeza? E se eu te animar dizendo que abriu uma casa nova bem no centro, perto daquele bar que você gostava antes de ficar noivo da garota que vale milhões de dólares?
- No máximo centenas, não milhares de dólares. Se fossem milhares, eu não estaria me casando com ela.
- Vamos Jef? Você nunca vai ser um noivo de verdade se não tiver sua própria despedida de solteiro. - os olhos do Larry brilhavam enquanto ele praticamente implorava por uma despedida de solteiro. Eu não sou tão insensível assim e se eles queriam um motivo para ir até um bordel, não podia deixá-los só na vontade
- Se vocês querem tanto ir, vamos! Mas se a família da Susan ficar sabendo de alguma coisa, eu juro que mato vocês.
Saímos naquela noite mesmo, fomos até a casa nova de “entretenimento” adulto que havia aberto assim como o Larry havia dito. Não era muito longe da redação, dava para ir andando e no meio do caminho conversamos. Como só foi Larry, Samuel e eu, pude falar sobre o dilema que eu estava passando, sobre o que estava começando a achar de Susan e sobre o dinheiro envolvido no meio de tudo aquilo. Não que o Sam e Larry sejam as melhores pessoas com as quais eu possa discutir alguma coisa, mas mesmo assim foi melhor que não compartilhar aqueles problemas e guardar tudo para mim.
O prédio onde ficava a tal nova casa era um pouco sinistro, tinha um estilo meio oriental e Larry disse que era assim por dentro também, além de todas as garotas serem orientais também. Na época eu não era muito fã de orientais e sempre ouvia história muito sinistra do que a máfia deles era capaz de fazer com ficava devendo algo. Queria desistir, mas não podia, Larry estava quase me empurrando porta adentro, parecia que ele já estivera naquele local e sua próxima frase denunciava a veracidade de minha desconfiança.
- Vou te apresentar a dona do local! – o entusiasmo era intenso em sua voz, ele parecia uma criança que ganha um brinquedo novo e quer mostrar para todos. – Hoje a noite vai ser sua campeão, você vai experimentar as coisas mais exóticas que o oriente tem. – senti que deveria ter medo dessa ultima frase
Por dentro o lugar era menos ameaçador do que por fora. Ninguém se sentava no chão ou coisa parecida, havia cadeiras e mesas, além de sofás aonde vi os homens mais influentes da cidade sentados como se nada estivesse acontecendo. Mas o lugar todo fedia a um cheiro muito forte que me deixou enjoado assim que entrei. Eu sabia muito bem que cheiro era aquele, era o tal do ópio, já tinha ouvido muito sobre ele.
- Esse lugar não é o máximo? Olhe só para tudo isso. E as mulheres... – Sam havia perdido o fôlego enquanto olhava aquele salão que se dividia em três parte: um pequeno palco, aonde nem duas dançarinas poderiam se apresentar ao mesmo tempo; um salão principal aonde ficava a maior parte das mesas e tinha os sofás encostados nas paredes; e por ultimo uma pequena varanda elevada, onde estavam sentados os chineses ou japonês – nunca soube muito bem a diferença – mais estranhos que eu já havia visto. Então uma mulher vestida num quimono rosa se aproximou de nós.
- Bem vindos a minha humilde casa jovens cavalheiros – ela não aparentava estar na casa dos quarenta e mesmo assim era muito atraente com seus cabelos negros, olhos puxados e pele alva. – Espero que gostem de tudo...
- Claro que vamos gostar senhora. Essas são as jovens mais bonitas que a cidade tem para oferecer aos seus homens – Larry tinha que interromper o discurso de boas vindas daquela mulher. – Viemos fazer despedida de solteiro para o nosso querido Jef. – não feliz em ser completamente idiota, Larry tinha que me levar junto naquilo.
- Oh! Que bom! Mas espero que o senhor continue sócio de minha casa quando já estiver casado. Somos muitos discretos senhores e zelamos pela boa imagem de cada um de nossos “amigos”, sabemos que eles têm família e que são res... – não posso relatar tudo o que aquela mulher pálida dizia por que simplesmente tive a atenção arrebatada pela coisa mais linda que eu já vira na face da terra, e ela estava dançando no palco, mais próxima de um anjo do que qualquer um das freiras que eu já tenha conhecido.
- Senhora! – a interrompi – Como é o nome daquela jovem que está no palco agora. – ela se virou para olhar melhor e quando seus olhos voltaram a me fitar, eles estavam carregados de um pequeno sorriso que faria qualquer um gelar.
- Aquele é Chun-rei, a nossa mais bela dançarina e alguns fregueses chegam a dizer que é a mais bonita de nossas garotas. O senhor deseja conhecê-la. – esse foi um daqueles momentos que eu sabia que deveria ter saído correndo pela porta e ter ido embora, mas o máximo que pude fazer foi balançar a cabeça em sinal de afirmação. Meu pesadelo estava preste a começar.

Lotus - O pedido

Esse é o meu mais novo projeto, minha nova menina dos olhos, mas não me esqueci que tenho outros projetos para terminar.
Espero que todos gostem desse conto.

Primeiro capitulo: O pedido.
Dezembro, 21 de 1921

Existe um rio chamado vida e é nele que navegamos com nosso pequeno e frágil barquinho. E assim como existe o rio, também existem as margens dele. Na margem direita temos a sanidade, que é munida de razões e lógicas e é por onde costumamos andar quando saímos de nosso barco para pegar mantimentos a fim de sobreviver às escolhas que temos que fazer quando navegamos pelo rio da vida. Na esquerda temos a margem da insanidade, que é casualmente visitada por alguns de nós que acreditam em uma vida recheada de momentos insanos e sem lógica. Eu sou uma dessas pessoas que um dia parou bem nas praias da margem da insanidade e de lá quase adentrou na floresta da loucura.

Minha saga começa no dia que fui fazer o grande pedido a filha mais velha dos Hinton. Isso foi a exatos dois meses atrás e posso dizer com toda a certeza que naquele tempo eu não passava de um garoto descrente em um futuro feliz, só me importando com os benefícios que aquele uniam podiam me gerar, pois a filha mais velha dois Hinton era a herdeira mais rica de toda a cidade, caso o senhor e senhora Hinton morressem. Então naquela tarde de domingo após a missa na igreja de Santa Luzia, eu caminhei na direção da família Hinton, mas precisamente dos pais e me apresentei como jornalista de um pequeno jornal da cidade. Claro que eles já me conheciam, porque meus pais e os senhores Hinton haviam sido grandes amigos quando eles ainda eram muito ricos.

- Mas é claro que nós lhe conhecemos pequeno Jef (Jeferson) – a senhora Hinton disse para mim, mostrando seus dentes brancos como nuvens – E fico espantada de você estar com toda essa cerimônia para conosco, você deve se lembrar de que seus pais eram grandes amigos nossos – ela disse “eram” como se eles houvessem morrido.

Trocamos um papo, como dizem por ai nas gírias dos negros. Não foi a tarde mais maravilhosa da minha vida e nem a mais movimentada, mas eu tinha um objetivo em mente e sentia que ele poderia se cumprir mais rápido do que imaginava, porque senti olhares da jovem Susan destinados a minha pessoa. Quando se é um jornalista, acabasse ganhando certos poderes como o da observação. Desde que me sentei à mesa deles, percebi que Susan me olhava com certa interrogação. Susan não é do tipo de garota que tira o ar de um homem, chega até ser simples de mais com seus cabelos loiros sem brilho e seu olhar azul embaçado, porém ela carrega nas faces um certo ar de nobreza que é muito comum em todas as mulheres da família Hinton, segundo o que meu pai mesmo me contava quando eu era mais jovem. E quem sabe aquele ar de nobreza poderia conquistar meu coração havido pelos contatos e dinheiro que aquela família poderia me conceder.

Já no final da tarde, anunciei minha intenção de visitar os Hinton no dia seguinte em sua casa para tratarmos de assuntos pessoais. Acho que nesse mesmo momento a Sra. Hinton percebeu minhas reais intenções já que abriu um grande sorriso e o direcionou a Susan que estava a minha direita, com a perna coberta com o guardanapo quase encostando em mim. Foi um momento meu esquisito, pois o Sr. Hinton me concedeu a dádiva de entrar mais uma vez eu sua mansão mos o fez com uma ressalva um tanto quando esquisita.

- Olha rapaz – ele junta as mãos como se fosse rezar – permito que vá a minha casa, pois sei que é um bom rapaz, mas quero que fique sabendo que em minha casa até as mulheres pensão com suas próprias cabeças.

Na hora não entendi o que ele queria dizer com aquilo, mas enquanto caminhava em direção ao meu apartamento, fui pensando melhor naquela declaração que poderia ser vergonhosa para qualquer pai de família, mas que para ele era como se fosse algo do qual se orgulhar. Percebi que ele também havia entendido as minhas intenções para com uma dê suas três pedras preciosas, ela tinha mais duas filhas e as tratava como se fosse raridades, apesar de nenhuma delas ser muito interessante, a mais nova, Beth, tinha claros problemas de concentração, o que para mim denuncia uma certa demência.

Eram sete horas da manhã quando me levantei no dia seguinte ao do piquenique beneficente da igreja de Santa Luzia. Estava muito ansioso, era como se estivesse indo a uma entrevista de emprego, e de um bom emprego, dependendo da resposta que eu receberia ali na sala dos Hinton, ornamentada com belas tapeçarias e cortinas de seda oriental, poderia me tornar um homem rico. De certa forma foi muito estranho o modo com o qual fui tratado por toda a família Hinton naquele piquenique, sou um reporte pobre, que vem de uma família falida e nos repórteres já somos descriminados demais pelas classes mais avantajadas. Eles acreditam inferiores ou que levamos uma vida promiscua, o que não é de todo errado, mas mesmo assim costuma me deixar muito chateado, afinal de contas eles precisam tanto de nós como nós deles. Os Hinton me trataram muito bem, permitiram que me sentasse a mesa deles, que compartilhasse da mesma comida, logo eu que sou um dos repórteres mais pobres da região.

Caminhei até a mansão dos Hinton as nove horas. Ela ficava numa parte nobre da cidade, uma área residencial e levei quarenta minutos para chegar até lá, mas não me incomodei, precisava pensar no que iria dizer para os Hinton. Nunca havia pedido a mão de uma garota e já havia ouvido sobre casos em que o pretendente era humilhado pela família da jovem em questão. Definitivamente eu não seria humilhado, as pessoas que me receberam tão bem em sua mesa de piquenique, não iriam me humilhar. Minhas mãos suavam quando apertei a campaninha, mas não demorei a ser atendido e quem veio me receber foi a pequena Barbara, a filha “do meio” do Hinton, que é uma garotinha muito agradável com o mesmo ar de nobreza no olhar. Quando passei pela porta e entrei na ante sala da casa, vi no relógio que eram quase eram nove e cinqüenta, o que me fez perceber que demorei dez minutos fora da casa, tentando decidir o que faria. Mas logo fui guiado pela casa até chegar a sala de visitas aonde se encontravam todos os membros da família, até mesmo uma negra que deveria ter sido a ama de leite de todas aquelas crianças além de ser a provável amante do senhor Hinton.

- Pequeno Jef, que bom que você veio – a mulher insistia em me chamar de pequeno Jef, mesmo vendo que eu tinha o dobro de seu tamanho. – por um minuto achamos que não veria mais fazer o pedido.

- Como senhora Hinton? – fiquei perplexo por perceber que todos já tinham entendido
a minha intenção. – Como a senhora sabe que eu vim fazer pedido?

- Clarice, não deixe o rapaz constrangido – interrompeu o Sr. Hinton com seu cachimbo na mão esquerda. – Vamos deixar que ele mesmo faça as coisas. Isso me faz lembrar do dia em que foi pedir sua mão em casamento... – tinha que interromper, senão ouviria a história mais longa da minha vida.

Interrompi dizendo que estava muito nervoso, e logo me foi oferecido um lugar para sentar aonde eu ficava de frente para toda a família, inclusive para Susan, o que me fez perceber que ela tinha as faces rosadas além de não conseguir olhar em minha direção, sempre mantendo a cabeça baixa. Eu tinha que ser rápido, estava percebendo que talvez meu pedido seria acatado por toda a família.

- Senhor e senhora Hinton, eu, Jeferson Randle, venho até a sua casa com a intenção de pedir a mão de sua filha mais velha, Susan, em casamento... – as palavras quase não saíram da minha boca.

Coragem Yan, coragem

Dizer que aquele estava sendo um dia ruim era muito eufemismo e Yan não podia ser dar ao luxo de cometer esse tipo de erro, não agora que o mundo parecia estar caindo sobre sua cabeça, bem no dia de seu aniversário de dezoito anos. Parado de frente a aquela barraquinha de cachorro quente, ele ainda conseguia ver o prédio de onde acabara de sair com a triste noticia de que seu currículo não agradou o suficiente a banca julgadora, o que dizia que ele ainda estava sem uma faculdade para cursar e sem um emprego para poder pagar a faculdade que pretendia começar no semestre que vinha pela frente. Aquele era realmente o pior dia de sua vida, e pior ficaria quando ele voltasse para casa e falasse para sua amada mãe que o emprego que ele julgava já ter ganhado, fora ocupado por alguém que tinha uma indicação melhor do que a dele. Comprar um cachorro quente e voltar para casa era somente que ele queria, não podia agüentar mais decepções, seu coração cheio de artérias e veias entupidas por anos de cachorros-quentes como aquele, não resistiria a mais uma bomba. Não seria bom nem passar na casa da Heloisa, porque o medo dela terminar o namoro era grande demais, visto que era só isso que faltava para o dia chegar ao ponto culminante da desgraça.

Atravessou a calçada e foi em direção ao ponto final do ônibus que deveria o levar para casa. Legal, tinham lugares vazios ainda, não teria que ir em pé, e esse é o tipo de noticia que pode deixar um cara feliz se seu dia estiver sendo muito ruim. Sentou-se do lado de uma velhinha que fazia crochê. Yan não era muito fã de pessoas mais velhas, pessoas que ele carinhosamente apelidou de “os livros”, porque não gostava de velhos assim como não gostava de livros. Nasceu órfão, sua mãe havia morrido no parto e seu pai nunca foi buscá-lo na maternidade e acabou sendo adotado por um casal de professores quase idosos que o obrigavam a ler pelo menos cinco livros por semana. Ler aquelas histórias todas nunca o ajudou muito com nada que ele queria, mas fizera seu vocabulário crescer muito, o que não o ajudou a encontrar amigos e namoradas, só mesmo a Heloisa, que foi sua única amiga e até agora, sua única namorada.

O ônibus começou uma viagem normal, seguindo pelo trajeto de sempre e até que não ia lento, mas mesmo assim Yan se desanimava de pensar que do centro de sua cidade até o bairro onde morava no subúrbio, o trajeto levaria mais de uma hora e meia. O que ele podia fazer além de dormir bastante e rezar para acordar antes do ponto em que desceria? “Então vamos ao cochilo”, ele pensou.

Yan sonhava com Heloisa. Ele realmente a amava e não sentia isso por mais ninguém, porque ninguém mais o havia tratado tão bem quanto aquela garota de cabelos castanhos e enrolados com olhos verdes. Claro que havia a Dona Mariza e Seu Adalberto, seus pais adotivos desde que ele tinha dois anos de idade, mas ele os amava de uma forma diferente da que amava Heloisa. Estava sonhando com o dia em que eles se conheceram no colegial, ela havia o protegido daqueles caras maus que sempre batiam nele. Sabia que ser protegido por uma garota era humilhante, mas ele não podia deixar de se sentir bem sabendo que mais alguém no mundo se importava com ele e foi muito legal ver aquela garota magrela quebrando o nariz de um cara que ele nunca havia tido coragem nem para empurrar. Era um sonho bom, porque sonhar com Heloisa era sempre bom.

Seu sonho foi entrecortado pelo som de um grito de mulher. “Mais que merda! Não se pode nem mais sonhar em paz”, foi o que ele pensou em quanto abria os olhos para ver o que acontecia. Porém Yan teve que conter um grito quando viu que um homem vestido com uma bermuda e uma camisa vermelha e preta estava assaltando o ônibus com uma pistola na mão e uma sacola na outra.
- Ai! Quero vê todo mundo quietinho, entendeu? To aqui só para levar a grana de vocês, mas se alguém der mole eu levo a vida também, tão sacando?

Sim, um assalto fecharia aquele dia com chave de ouro. Por que tinha de ser justo no dia em que ele aproveitou e foi ao banco tirar o dinheiro da aposentadoria de Dona Mariza? “Deus não sorri para mim”, foi a única coisa que passou pela cabeça de Yan quando ele viu que o assaltante vermelho e preto chegava cada vez mais perto dele com a arma na mão e recolhendo os pertence de todos. Ele não podia entregar o dinheiro todo, aquele era o dinheiro para passar os próximos meses enquanto ele não arranjava um emprego. O que fazer? O cara tinha uma arma e mesmo que ele estivesse de mãos vazias, Yan nunca tinha enfrentado ninguém. Quando conheceu Heloisa, depois que ela quebrou o nariz do garoto que o perseguia, foi agradecer pelo gesto e ela simplesmente lhe disse:

- É melhor você virar um garoto de verdade. Eu não vou ta aqui sempre para te proteger. – depois abriu um sorriso e perguntou – Quer tomar um sorvete? Mas você paga!

Desde aquela época Heloisa estava certa, ele tinha que tomar vergonha na cara e começar a se defender sozinho. A pessoa que pegou o emprego que já era dele, havia o passado para trás, assim como o cara do cachorro quente que havia lhe roubado cinqüenta centavos só porque viu a cara de otário de Yan. Agora era a vez de o assaltante lhe passar a perna e tirar o único dinheiro que ele tinha.

O assaltante estava mais perto e a arma brilhava na direção de Yan, como uma risada capaz de cortar o coração. Ele precisava fazer algo, mas o que fazer contra uma pessoa que tem uma arma? Se fosse forte poderia tentar tirar a arma da mão daquele bandido vermelho e preto, só que ele não era forte e muito menos tinha coragem para fazer uma ação tão ousada assim.

Quando o assaltante ficou de frente para Yan apenas disse: “Passa a grana banana!” Então ele foi capaz de reconhecer aquele ladrão vermelho e preto. Ele estava no banco quando Yan foi tirar o dinheiro e provavelmente o estava seguindo até o momento certo de fazer o assalto, o desgraçado ainda ia levar metade de um ônibus cheio de pessoas de idade e de crianças que não tinham nada a ver com aqueles cinco mil reais que estava no bolso de trás da calça jeans de Yan.

Aceitar toda a situação seria abaixar a cabeça e Yan se perguntava até quando ia abaixar a cabeça para as pessoas que o faziam de “banana”. Não, essa seria a ultima vez que uma pessoa iria falar com ele assim, seria a ultima vez que ele seria feito de banana.

Os sons de tira foram o suficiente para Yan saber que aquela seria realmente a ultima vez.

Ensaio e método para testar a solidão.

Quem estiver afim de entender melhor tudo isso, é só ir até o post anterior a esse...

Que a solidão é uma das dores mais sentidas, nós já sabíamos. E sabemos também, que ela é capaz de enlouquecer o homem que atem como chaga. Pouco há de novo à falar sobre a solidão, mas mesmo assim ainda somos suas vítimas. Alguns de nós acaba por se enamorar da solidão e de suas amigas, desejando-as com o único objetivo de motivação para alcançar uma vida profissional, religiosa ou até mesmo afetiva, de melhor qualidade.

Aonde se encontra o erro? Amar a solidão é errado só por causar dor em si? As pessoas que causam dor em si, são menos humanas do que as que causam dor em outros?Tendo em vista de que as perguntas necessitam de resposta, fui a caça de algo maior do que meras respostas filosóficas de índole duvidosa, que afirmam ser a solidão o maior de todos os erros da sociedade moderna.O método de pesquisa foi bem simples, admito. Tanto assim foi, que em um único gesto me prendi no alto de uma torre que, por sua vez ficava distante de qualquer civilização a quilômetros. Foi um gesto pensado, apesar de não aparentar. Fiz estoque de provisões que diziam durar mais de um ano, mesmo que no início eu não desejasse passar mais do que um mês em cárcere.

O início foi o início. Doloroso como tende ser. Me perguntei diversas vezes o porque de tudo aquele sofrimento, e quando já não via outra pessoa além daquela no espelho, por mais de um mês, parei de pensar em que estava fora do meu casulo. Comecei a pensar que eram eles, os vocês, que viviam dentro e eu vivia fora, livre de tudo, sem regras e sem lei. Dentro da minha torre era o rei, eu fazia as leis, poderia amar, matar, livrar quem eu desejasse, mas não havia ninguém além de min.

No final de um ano, quando as provisões acabaram, sai. Caminhei para fora, mas ainda achei que estava entrando e não saindo. Fiquei triste.Agora, enquanto escrevo, percebo que realmente não saia e sim entrava. Estava entrando no mundo real. Que é mais imaginário do que o mundo que criei em minha torre de solidão


Só lembrando que essa é a primeira tentativa, então me perdoem pela falta de concordancia...
E quem estiver afim de ver sua obra aqui, é só me falar...