Mais um cigarro, por favor

Luz vermelha e quente, brasa
Ao sabor das sombras acinzentadas, fumaça
O peito arde ao inalar
A vontade faz doer a cabeça

Cinco minutos dentro de cada cigarro
Vinte cigarros dentro de cada Mês
Um maço por dia de cada semana
Quatro semanas de cada mês
Quatro segundos puxando e soltando
Fumaça contabilizada

Tenta-se largar, as mãos tremem
Continua-se a tragar, o peito reclama
Hábito feio, pessoas reclamando, o dia passando em círculos
E a vontade, pesada como uma bigorna

Fardo quente e mal cheiroso
Prazer de um louco podre
A verdade em pequenos momentos
Agendados pelas mãos segurando um cigarro

Almas de fogo

Existe algo dentro de mim,
Algo que não sei explicar.
Como pedras que rolam,
Pensamentos tentam escapar
e por entre meus olhos a imagem flui.

Quanto de tudo isso você pode sentir?
Você pode sentir?
Mesmo de ouvidos fechados, o quanto você pode escutar?

As sombras se fazem aparentes
Mostrando os dentes de uma realidade morta.
Eles conseguem me ver?
Sou tão brilhante quanto mil super novas.
Veja as imagens fluindo de meu olhos.
Veja o mundo com os meus olhos.

Não a tempo para descanso.
Sou de aço, meio forte como o tempero
Agridoce que carregamos no suor.
Lembra do gosto de meu suor?

As imagens podem ir,
Mas quanto de tudo isso vai ficar?
Ainda não te escutei dizer
se pode ver as imagens que saem de mim

Não fique calada, não se cale nessa estrada,
Não sei para onde ela pode nos levar.
Não se preocupe, eu brilho como mil sois de verão
E o caminho vai ser claro até o escuro infinito.

O homem vazio no escuro

Acorrentado ao nada
Preso no vazio de dias sem motivos
Numa vida sem propósito
Existência antimaterial
Buscando o sem sentido
Entendendo o ilógico
Calculando sobre átomos
Relevando sentimentos

Es a porta
Lá está o sábio
Na cabeça a pergunta
Coração cheio de um nada negro
Dúvidas, ânsias, indagações
Verbos sem ação
Por que e quando
Há respostas não ditas
Maldito conhecimento descabido
Sagrada Ignorância do medo

Dor apõe sobre o peito
Sem respostas, não há nada
Apenas mais um fracasso
Em meio a tantas vitórias perdidas
Culpado e humilhado se retira
Retornando ao caminho
No som do vazio, escuro
Tilintando as correntes

Sobre meu pesadelo com a morte

Talvez seja o ultimo suspiro,
Não se sabe ao certo
A dor turva os olhos
Momento de reflexão
Reflexos da minha vida

Sim, o peito dói
A face treme e as mãos suão
Enquanto o ouvido se cala
A boca abre a vogal que escuta o tempo
Não passa, não para
Já não dói, só há o desespero
Calado e tenso

Apego-me a crenças
Desfaço o passado pedindo perdão
Desculpas por erros seus
Gratidão pelos acertos meus
Sentindo o sossego se aproximar
Ele vem, constante

O grito sonoro
Acordo com o acorde
Peito dolorido, mão suada
E o sorriso de alivio
Ainda estou aqui

Estrada longa

À sombra de algo cativo
Procuro em meio a pensamentos
Escolhas tortas para problemas certos
Imaginando pequenas falhas
Perpetuadas na malha do destino

Monstros criados por mim
Exibem o real valor dos sentimentos
Que carrego em meu coração
Culpa, vergonha, resentimento
A alma doente sintetizando
Exponenciando minhas atitudes
Varrendo o passado
Caçando vestígios para terminar a trilha

Desesperado, colhendo frutos podres
Fico sentado, em estado relaxado
Sempre existirá o conforto do esquecimento
Porém a alma recuse
Acusações são necessárias
Assim me mantenho na trilha

O tempo esgotará
Ainda estarei aqui
A trilha pode ser comprida
Pelo caminho da culpa
Vivendo a culpa
Sentindo vergonha
Esperando pelo resentimento

Atena e a arte da justiça

Cem Mil flechas aos que querem meu reino,
Que o sabor do sangue seja doce e cremoso,
Que as lagrimas escorram e limpem a boca.
pois é suja, as dos homens que tramam contra min.
Agora que vingados, tragam a mim seus pecados
E, quem sabe, os perdoarei, se não perpetuo a sentença
e as flechas voltarão a fazer seu balé no céu
Indo de encontro aos corpos ou ao nada.

Mares de fúria pesam sobre mim,
Porém ainda acho pouco, e não sinto pena
afinal não fiz alarde sobre as flechas?
Não disse o que ocorreria aos traidores?
foi sabia a minha decisão
Disso sei mais que qualquer um
Caminho nas trilhas da justiça e justiceiro sou,
Pois de fato sentencio.
Quem haverá de sentenciar, se não eu ?
Quem haverá de punir?

Não preciso ser julgado, por julgador ser.
Assim me faço acima da lei
E minha espada é a ordem.
Sou a lei que trabalha com a ordem
Não a lei que se referencia a ordem
Quem há de me julgar?
quem julgará aquele que julga?

Muro de Berlim

Posto de frente ao memorial de ilusões
Que erguemos e nome de falsos ideais.
Hoje choro, me descabelo, me arrasto
Na lama que os pés descalços,
Daqueles que ajudaram na construção,
Promoveram com o suor de seus corpos cansados.

Presos! Estamos todos, presos.
Do lado de cá ou do lado de lá, tanto faz.
É o muro separador!
É o muro da vergonha!
É o muro da dor!
Sofrida por aqueles que viram seus corações separados.

Mas um dia há de cair,
Explodido pelas mãos e mentes
Daqueles que ajudaram,
Para a dor de quem governa e manda construir
Um muro que serve para destruir.

Simetria Cibernética

As teclas gemem enquanto digito.
Talvez seja só o som do cérebro eletrônico funcionando
Ao passo que o pé físico força a estante que o segura.
O som é constante, mesmo com o vaco da mente.
E se propaga nas longas estradas virtuais
Nas quais meus pés físicos, só tocam por um encanto
Chamado script

Quem sabe um dia, não largo a areia vetorial
E surfo nas ondas magnéticas.
Afinal de contas, não foi para isso que a prancha de metal foi criada?

Ando guardando arquivos mortos demais
Sinto que posso até montar um simétrico para coisas que não quis deletar
Penso que foi por Ter medo de achar valor no lixo
E um dia me jogarem fora, pois já não tenho mais valor também
Quando se apaga um bit, se perde uma lembrança
Já que não há mais na mente para guardar os sentimentos analógicos

Se eu perdi a essência humana?
Não! Longe disso.
Apenas a digitalizei em busca de um novo ideal.
A quem (ou a o que) chamo de: “Simetria cibernética”

Dia de lindas estrelas

Canto, só, em um pequeno canto da sala
Com o olhar fixo em uma pequena janela fechada
Esperando ver o infinito invisível.
Sento na esperança de poder me levantar,
Mas ainda assim estou cansado
De não fazer nada.
A porta se fecha para eu sair.
Caminho pela calçada feita de grama,
Tentando não pisar no jardim de pixe,
Pois assim diz a placa que não tem nada escrito.
Olho para o relógio sem ponteiros
Que me diz faltar um pouco pra daqui a pouco.
Chego a estação, que não tem trens
E me transporto de avião, por um mar de sonhos.
Talvez só esteja voltando para casa?!
Talvez só queira cantar em um canto.

Amargo café das seis

Quando o desejo de vingança é grande
Cabe a razão dizer a alma que o ferimento não irá sarar.
Mesmo que se lamba o sangue envolta
E se faça réquiem aos Reis do nada.
Pois é certo de que nem sempre somos feitos de terra.
Quando não, nossa essência é a moldável água barrenta,
Assim não se faz dura a consciência,
Acabando por achar qualquer erro banal e sem sentido maldoso.

Não tendo nada à ter ódio,
Só nos resta a doce desculpa do ser que não errou.
E ela vem, mesmo que a burro e sem sela, mas vem.
O medo nasce quando o tempo de espera é grande e o coração vacilante.
Já que nem todos estão dispostos a pedir perdão.
É ai que o amargo café das seis chega.
Com ele vem as lágrimas atrasadas e a risada fora de hora.
Pode-se até pensar que é proposital, mas não, é fatal!

Olhamos para os fundos dos olhos, mesmo que infinitos.
Pensamos que era melhor não existir rancor e nem pedidos.
Os tiros foram dados em momento de raiva repentina.
A mesma que cega os sábios e dá vida aos monstros.
Quem vamos enganar depois da derrota admitida.
Ainda vai sobrar dúvidas e sopros de hálito quente no vidro frio.
As desculpas vem com o tempo, porque sabemos que ira perdurar o momento.
O vazio do momento que deixamos
Quando seguramos o copo de café amargo e sem leite.

Ao casal em leito

Saiba que a guerra entre nós, me fez adoecer
E agora as horas me parecem longas demais
Fazendo meus dias mais tristes e contaminados por rancor
Enquanto vejo os outros à darem risadas.
Podemos não saber o preço da paz,
Mas achamos justo barganhar a morte com o arauto
Que nos sentencia à dor eterna dos corações vazios
E repletos de ódio e raiva, as quais nutrimos sem esperanças

Entenda que os gritos desferidos
Só serviram para criar feridas
Que não sabemos se serão fechadas ou saradas.
Porém as sintamos doer ao contato das lagrimas salgadas.
Ao declinar-se por nossa face enrugada e enegrecida.
A quem o tempo fez questão de cobrar seu lucro.

Aprenda quanto tempo levam as tortas para assar.
Assim, quem sabe, você me contemple com seu doce,
Tentando apagar o amargo que trouxe aos meus lábios
Que lhe pede, o que lhe é de direito.
Como Deus faz com as almas perdidas.

Levanta e corre comigo por caminhos tortos
Na vã tentativa de deixar para trás as palavras mal ditas.
Que há tanto proferimos sem pensar o quanto custavam
E o fim chegam a nós com a morte silenciosa.

O Leão (Parte I)

Finalmente achei que era hora escrever algo sobre espionagem, que é o estilo que mais gosto de ler. Fiquei com um pouco de medo, porque não quero que fique ruim ao ponto de não poder ser lido. Sei que tenho umas deficiências na escrita, mas espero que isso não atrapalhe em nada.
Esse texto terá continuação e ela está sendo escrita já.
Gostaria de saber a opinião de todos, porque elas podem influenciar no que será escrito.

Mesmo depois de se viver por 3 anos em Moscou, Leonard Collins ainda a acha uma cidade estranha. Quando ele foi chamado para compor um grupo de elite de agentes secretos das Nações Ocidentais Unidas, um dos agentes veteranos havia comentado que Moscou nunca será uma cidade acolhedora para quem tem algo a esconder. Collins, o Leão, como era chamado pelos seus amigos de campo, tinha muito a esconder aquela manhã. Caminhar até o ponto de encontro marcado pelo pessoal da agencia com o protótipo da mais nova arma russa de destruição em massa e relatórios internos sobre os domínios espaciais russos, com certeza era ter algo a esconder.

As ruas são vigiadas por câmeras e sensores de calor, instalados desde a 4º Grande Guerra para evitar os ataques biológicos que foram responsáveis por mais da metade das mortes nos anos de 1998 e 1999. Quem estiver um grau mais quente do que o permitido, é prezo e levado para um interrogatório que poderá resultar numa absolvição divina. Collins não fica excitado nunca, mas aquela pasta embaixo do seu braço direito era como se fosse uma brasa queimando sua roupa.

Durante o treinamento na base inglesa de Londres, Leonard aprendeu que quanto mais ele souber sobre as informações que está “migrando” de país, mais ficará excitado e possivelmente desatento. Desatenção pode levar a um desastre de proporções gigantescas, como o ocorrido dentro da própria União Vermelha dois anos antes de Collins e sua equipe irem para o território inimigo.

As mãos de Collins começaram a suar por debaixo das luvas. Ele havia lido os relatórios junto com os planos do protótipo da arma antes de sair de seu apartamento no subúrbio industrial da cidade. Os relatórios ou o protótipo analisados sozinhos não tinham muito significado, seriam apenas mais um monte de papelada pronta para ser descartada na agencia pela falta de consistência, procedimento padrão adotado na segunda metade da 4º GG depois da série de pistas “importantes” que foram forjados pela contra agencia da UV. Mas se vistos juntos, eles revelavam uma verdade perturbadora sobre o inimigo e sua intenção para com a corrida espacial.

Ele tinha que entrar em algum lugar com paredes grossas ou começar a andar sem as luvas para que os sensores não o identificassem, mas quem anda sem luvas com uma temperatura de -22º C? Mais alguns passou e ele estaria perto de um local seguro para acalmar seus ânimos e voltar à caminhada.

Uma das regras básicas da espionagem após as medidas de proteção civil tomadas pelo o governo, foi não pegar mais transportes públicos, porque eles estavam cheios de escutas e câmeras com raio X. Andar de carro na cidade também não era permitido aos civis, só o militares e os funcionários públicos podiam andar com seus carros, qualquer outro veiculo não identificado era atacado no mesmo momento pelas metralhadoras robóticas e de alta precisam que foram instaladas encima de alguns prédios. O problema era que a agencia de Leonard sempre marcava pontos de encontro muito longe de sua residência na cidade, para evitar que numa possível fuga sua base fosse descoberta, então caminhar era a única forma de locomoção.

Sentado no bar, enquanto bebia seu copo de Vodka, procedimento totalmente fora do padrão, Leonard pensava sobre toda aquela situação e ficava se questionando se vali mesmo a pena estar daquele lado da linha. Ele poderia ter sido um bom analista de dados e estar agora sentado atrás de uma mesa bonita, em qualquer uma das bases que a agencia tinha espalhadas pelo mundo, apenas se preocupando em decifrar uma série de código e informações que os agentes de campo o passavam. Seria um trabalho menos desesperador, primeiro porque estaria a salvo de ser preso pelo exercito vermelho ou torturado pela agencia de contra espionagem, e segundo por saber que os analistas nunca fazem uma analise de informações inteiras, eles recebem parte de uma mesma informação passada pelos agentes de campo e depois enviavam a sua parte ao analista superior, que tem a função de juntar tudo e fazer uma ultima avaliação. Porém qualquer questionamento nesse momento era infrutífero e só iria o deixar mais tenso ainda.

Voltar para a rua e sentir de novo o ar congelante no rosto descoberto, foi algo que deixou o corpo mais calmo e relaxado. Leonard agora andava mais confiante até o ponto zero, que era numa pequena praça de Moscou onde a pouca boemia reacionária podia se reunir sem apanhar dos militares. Não faltava muito, mas ele deveria circular o local duas vezes antes de ir falar com seu contato, uma aeromoça da única empresa que podia fazer vôos internacionais dentro da União Vermelha.

O nome do contato é Nika e Leonard a conheceu dois meses atrás quando foi ao primeiro encontro. Ele sabia que ela deveria estar vestida com roupas normais, o combinado era um sobre tudo preto e um gorro de pele marrom. Então ele deu a primeira volta pela praça e o contato não faz a parte dela, que era pegar o aparelho celular e dar um toque a secretária eletrônica que iria transferir a ligação para o celular de Leonard. NIka estava ali, e havia visto ele, mas simplesmente não se comportava como deveria.

Qualquer comportamento diferente do combinado é considerado como um alerta para fuga, segundo o treinamento. Porém ele continuava ali, já estava na terceira volta, queria ver o que estava acontecendo. Foi nesse momento o brilho de um binóculo chamou sua atenção para o alto de um prédio residencial que ficava bem enfrente a praça. O contato fora descoberto e não agi conforme o combinado para salvar a vida de Leonard.

Depois de ver seu contato descoberto, o primeiro passo é começar a traçar um plano de fuga para seu segundo ponto de encontro e esperar que o contato perceba essa deslocação. Nika percebeu que seu contato estava sé saindo de cena, mas foi numa direção totalmente oposta, para Leonard aquilo só poderia significar que era melhor não seguir para lá também. Ele deu mais uma volta pela praça e começou a ir em direção a via principal, seu plano era ir até o prédio onde trabalhava e usar o esconderijo de sempre para guardar os relatórios e o projeto. Nesse mesmo estante em que seu corpo muito mais tenso que o normal, tremeu ao escutar a voz de um guarda ordenando que parasse e se virasse lentamente com os braços abertos. Quando Leonard se virou, pode ver cinco soldados apontando seus rifles em sua direção. Nika estava logo atrás.

Continua...

Aleksándr, O Homem.

Meu pai costumava dizer que a coragem de um homem se mede não pelos atos que ele comete em nome de alguma prova, mas sim nos momentos em que se nega a fazer algo porque entende que não precisa provar nada a ninguém. Eu, obviamente, ouvia tudo isso calado, mas no meu interior maldizia aquelas palavras, pensando apenas que meu pai era só mais um covarde como todos os outros naquela casa. Naquela época não sabia do que sei hoje, porque é só através da vivência que reconhecemos os ensinamentos que os mais velhos tentaram nos passar.

Meu nome é Aleksándr, sou conhecido apenas como “O homem” por aqueles que temem o meu trabalho e essa história que irei te contar, não vai lhe deixar mais feliz e nem servir como material principal para o seu livro, porém transmitirá um conhecimento que nenhum dos colégios católicos conservadores foi capaz de me passar quando mais novo.

Eu já trabalhava para a “máfia” há muito tempo, mas apenas em cargos pequenos. Era o que eles chamavam de lixeiro, fazia a faxina depois que o trabalho dos carrascos estava pronto. Não era um emprego muito bom, mas me ajudou a ficar fora de problemas maiores por bastante tempo. Tempo suficiente para aprender mais do que a maioria que ia e vinha como soldados e atiradores de elite incapazes de ficar sóbrios para dar um bom tiro.

Tenho que admitir que em alguns momentos eu gostava de mentir para os policiais e pagar pelo silêncio deles e o engraçado é que gostava ainda mais quando o silêncio deles era falho, no fundo porque eu sabia que aquele era o tipo de coisa que meus chefes gostavam de punir em alto estilo. O lema era “contrato desfeito, vida desfeita” e esses homens para quem eu trabalhava não eram piedosos em suas vinganças. Uma dessas vinganças em especial foi o que me colocou dentro do círculo maior.

Minha missão era fazer uma cobrança. Aparentemente não haveria hostilidade, o devedor já era velho conhecido e sempre atrasava para fazer seus pagamentos, acho que tinha algo a ver com a mulher que estava morrendo de câncer. Para a minha infelicidade, dessa vez as coisas foram diferentes e foi nesse dia que eu dei o primeiro passo. Ainda posso me lembrar de cada fala, como num desses filmes que vocês americanos fazem. “Não tenho dinheiro esse mês, meu jovem” disse o velho, ele era só um barbeiro de idade avançada e eu não tinha motivos para espancá-lo até ver a cor do dinheiro. Eu poderia ter saído da sala e ter colocado dinheiro meu dentro do envelope de pagamento, era pouca coisa na época e seria menos hoje em dia. Diferente de tudo o que queria fazer naquele momento, apenas perguntei mais uma vez “quando o senhor terá dinheiro para nos pagar senhor Macfield?” e o velho sorriu para mim com o canto da boca e apenas respondeu “amanhã meu jovem, amanhã”. Sim, sabia que ele estava mentindo para mim, ele realmente não tinha o dinheiro, isso eu mesmo poderia ter visto, a mentira estava em me dizer que no dia seguinte aquela situação mudaria. Eu sei quando situações mudam para homens simples como ele e o “amanhã” que havia dito não seria um dia desses. Não poderia perdoar que um homem como aquele mentisse para mim, era o meu primeiro trabalho sério e se eu saísse dali como fraco, teria que deixar a máfia.

- E o que o senhor fez? Como o matou?

Você é um garoto apressado, mas entendo sua vontade de saber como eu dei cabo de um velho indefeso, é o cinema e esses jogos que fazem vocês ter tanta sede de sangue. Mas contrariando tudo o que você conhece sobre nós, os russos, não o matei com floreios e requintes cruéis, apenas mirei aqueles olhos velhos e percebi que ele já esperava ser espancado, provavelmente por ser isso que todos os cobradores antes mim faziam. Aí levantei minha arma e acertei um tiro bem no meio da testa.

Você sabe como uma vítima de tiro a queima roupa na cabeça morre? Não é uma visão muito bonita, pelo menos para pessoas normais. A bala entra pela frente com um pequeno furo e sai por trás fazendo um rombo enorme. Eu vi aquela cena pela primeira vez com apenas 22 anos de idade e tem quem diga que eu já estava velho para ver algo do tipo.

O resto do meu trabalho não foi importante, só joguei gasolina por todo o chão da barbearia enquanto ouvia a voz da mulher do barbeiro gritar do andar de cima “ John meu velho, o que está acontecendo aí em baixo?”

- E porque você simplesmente não subiu lá e a matou também?

Meu deus! Você é um doente sádico. Está me impressionando cada vez mais, menino repórter. Eu só não tinha motivos para matá-la com minhas próprias mãos, afinal de contas ela não tinha culpa da mentira do marido, era só uma inválida presa em uma cama suja com a sua própria merda. Sim, quando toquei fogo na barbearia a matei também, porém foi completamente diferente. Ela morreu por não ter forças para se levantar quando viu as chamas pela subindo pelas escadas, de certa forma não posso ser culpado por essa morte.

Acho que chegamos ao ponto em que você vai ouvir o que tenho a ensinar garoto. Porque a morte desse velho barbeiro, que na época tinha menos idade do que tenho agora, é um grande exemplo de ensinamento que ignoramos quando somos jovens. Ele morreu por uma mentira, correto? Sim, isso mesmo, ele morreu por contar uma mentira a quem não deveria. Eu teria lhe poupado a vida se tivesse caído aos meus pés aos prantos dizendo que não tinha dinheiro, mas que lhe poupasse a vida. Ele preferiu mentir, tinha o hábito de mentir e ser punido levemente por isso. Se todos os cobradores anteriores tivessem feito algo a ele que fosse importante, provavelmente não teria mentido e não estaria morto. Em resumo, ele morreu por ter o costume de mentir.

Você está gravando tudo? Está aprendendo, meu jovem? Está realmente absorvendo o que lhe disse esses dias? Espero que sim, porque se um dia você mentir por hábito a um membro da máfia russa, vai ser punido da mesma forma que aquele velho barbeiro. E por falar nisso, acabo de me lembrar da história de repórter que tentou fazer o mesmo que você, mas isso é história para outro dia. Agora saia e me deixe descansar.

- Poderei voltar amanhã?

Se eu ainda estiver aqui para contar algo, dizem que tem ótimos peixes na costa leste esse ano.

Camadas - Capítulo V - Olhando pela janela

Para acompanhar melhor, leia os capítulos anteriores.
Capítulo I – Vendo o invisível
Capítulo II – Grandes descobertas

Capítulo III – Explicando a realidade
Capítulo IV – Caçando no esgoto


Nesse capítulo que eu estou postando agora a história deixa de girar entorno de Milena e passa a falar de outro personagem.
Espero que o pessoal que está lendo continue e quem ainda não leu que passe a faze-lo

***

Capítulo V – Olhando pela janela.

Já era a terceira vez que Sam acordava no meio da noite porque um pesadelo se interpôs entre ele e a paz de um sono quente e sem problemas. Ele se levantou coçando a cabeça de cabelos negros como o manto de noite que se estendia janela a fora. Não havia nada que podia fazer, voltar a dormir quando se acorda de um sonho ruim como esses não é o melhor remédio, você pode se deparar com o mesmo pesadelo e acabar ficando preso nele para o resto da vida. Então o melhor a fazer era levantar e tomar alguma coisa forte para acalmar os ânimos. Sam se virou agora sentado na cama e pode perceber o quanto já havia suando só olhando para o estado de lençol que o estava cobrindo.

De certa forma Sam estava acostumando-se com os pesadelos, era a quinta noite seguida que ele tinha que ver coisas que não queria, coisas que faziam sua espinha tremer como um peixe recém abatido. Tinha que levantar e tomar alguma coisa urgente, se não era capaz de ver aquelas coisas só fechando os olhos. Checou o armário e para sua infelicidade ficou ciente que não havia mais nenhuma garrafa de vodka que seu primo havia trazido. Era quase um insulto um latino preferir vodka a tequila, mas Sam não se importava, sempre tivera gostos estranho, quando era garoto gostava de ficar em cima de seu prédio olhando para a cidade com seus binóculos, algumas pessoas achavam ele doente, mas ainda podia se lembrar das palavras de seu pai sobre seus gostos: “Apenas não toque! Se você estiver só olhando, eles não podem te acusar de nada!”. Talvez olhar voltasse a acalmar seu coração, ele pensou procurando seu binóculo, agora um profissional e com lentes noturnas.

Sam bateu a porta do apartamento com o coração ainda sofrido por não poder ter acesso à santa vodka curadora de males como os pesadelos, mas já podia se sentir melhor por poder observar a cidade em uma noite tão clara como aquela. Seria relativamente fácil: só achar um prédio nem alto nem baixo e que tivesse escadas para o telhado. Demorou um pouco procurando o prédio e quando parava e fechava os olhos podia ver a última cena que os olhos de sua mente virão. Uma mata fechada, tão fechada quanto se pode ser, ele corria em direção de sabe lá Deus o que, quando no meio do caminho ele percebe que está sendo seguido, mas não pode ver que está atrás dele, pois se olhasse para trás ia perder tempo e eles iriam pega-lo. O sonho terminava com ele dando de cara com uma “coisa” metade monstro, metade máquina que tinha em seus braços o corpo de uma jovem de cabelos curtos e olhos extremamente azuis.

Ele encontrou o prédio perfeito e subiu nele feito um alpinista escalando uma montanha ainda não explorada. Cada parada nos lances da escada significa que poderia ser visto, por isso ele trata de não parar até estar no telhado. Então quando se encontra localizado no telhado, no telhado perfeito, escondido nas sombras, trata de escolher sua primeira vítima: um prédio residencial que fica a esquerda do prédio em que ele está assentado.

Ser um voyeur é um trabalho que exige muita paciência, mas pode ser bem recompensador dependendo do ponto de vista com que a situação é vista. Ele sabe que tem que esperar muito antes de qualquer ação, por isso não se detém muito nas janelas onde ainda há luz ou brilho de aparelhos de televisão. Procura as janelas com as cortinas fechadas, porque sabe que existem motivos muito bons para que elas estejam fechadas. A primeira analise não dura mais que dez minutos: são vinte andares, quatro janelas por andar, das oitenta janelas setenta e três está completamente com as luzes desligadas e as cortinas abertas, como já era de se esperar: pessoas comuns. Mas são as outras dezessete janelas que o interessam. Em duas ele pode ver casais transando, nada demais ou que mereça sua atenção, em três um cara gordo está vendo televisão enquanto se empanturra de salgadinhos ou bolinhos, sobram quinze janelas e muitas delas só deixam a vista cômodos sem graça em que não existe presença humana digna de ser observada.

Sam começa pensar que era melhor ter ido até uma loja vinte e quatro horas e ter comprado uma ou duas garrafas de vodka, talvez ele fosse assaltado no meio do caminho e isso sim seria emoção o suficiente para fazer esquecer a figura sinistra que ele havia visto no sonho. Mas é quando ele se prepara para a retirada à procura de outro prédio ou de uma loja, que uma luz repentinamente se acende chamando sua atenção. Um das janelas de luz desligada com uma pessoa dormindo resolveu mostra ação. Ele se senta na escuridão novamente e se preparada para observar. A visão é das mais comuns: uma mulher, provavelmente na casa dos vinte e poucos anos, se levantou para ir ao banheiro, que fica enfrente a janela, apenas precedido de um pequeno corredor, pegar algum remédio. Ela caminha até o que provavelmente é a cozinha e volta com um copo de água, senta na cama em quanto toma seu remédio junto com um copo grande de água. Aquela é uma das cenas mais normais que um ser voyeur pode presenciar, mas mesmo assim ela foi como um soco na boca do estomago de Sam. Ele ficou tentando aumentar o zoom do binóculo, mas ele já havia visto bem nitidamente para ter certeza: aquela mulher bebendo água era a mesmo que ele havia visto em seu pesadelo a algumas horas atrás.

Quando coisas estranhas acontecem, demora um pouco para que a mente volte a raciocinar. A de Sam levou exatas duas horas de observação para voltar ao normal e quando foi dar por si, já estava quase amanhecendo e ele tinha voltar para seu apartamento e se arrumar para ir trabalhar. Anotou o nome da rua e o número do prédio, assim como o número que ele acreditava ser o do apartamento da tal mulher. Foi correndo para casa na esperança de não se atrasar para o trabalho pela sétima vez esse mês.

Durante o caminho de volta, Sam via em cada reflexo de vidro a imagem da mulher misteriosa presa nas garras do monstro máquina que o estava seguindo em seu sonho, então ele percebeu que aquela cena seria muito difícil de ser esquecida. Correu pela escada do seu prédio rezando para poder ter tempo de só pegar uma camisa limpa e ir voando para o trabalho. Mas quando abriu a porta do apartamento percebeu que as coisas não iam acontecer da forma como ele queria. Parado a sua frente estavam dois homens com roupas que lembravam os personagens do filme, Senhor dos Aneis.

- Vossa senhoria seria o jovem Samuel Morris? – perguntou o barbudo com um cajado nas mãos.